MDMA
A MDMA (3,4-metilenodioximetanfetamina) é uma substância sintética que liberta sobretudo serotonina no cérebro; classifica-se como entactogénio, não como psicadélico clássico. É estudada na terapia assistida por MDMA, que combina a substância com psicoterapia, sobretudo na perturbação de stress pós-traumático. Não está autorizada como medicamento na União Europeia nem em Portugal.
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O que é a MDMA?
A MDMA é uma molécula sintética aparentada com as anfetaminas. Nos documentos regulamentares surge com a denominação comum internacional midomafetamina [1].
Pertence aos entactogénios. Comparada com os psicadélicos clássicos, produz um estado mais curto e mais fácil de tolerar, com abertura emocional e sensação de ligação aos outros [2].
A MDMA do mercado ilícito tem composição e dose incertas. Esse uso não é comparável à administração controlada nos ensaios [2].
O que é a terapia assistida por MDMA?
A terapia assistida por MDMA é um tratamento experimental. A substância é tomada poucas vezes, em sessões longas acompanhadas por terapeutas, dentro de um programa de psicoterapia.
A ideia é que a MDMA torne mais tolerável recordar memórias traumáticas, sem que a pessoa fique dominada pelo medo. O que se testa é a combinação com a psicoterapia, não a substância isolada [3].
Por enquanto, este modelo só existe em ensaios clínicos ou em regimes de acesso excepcionais, como o australiano [4].
Qual é a história da MDMA?
Fábrica Merck em Darmstadt, c. 1886
A MDMA foi sintetizada em 1912 e só décadas depois chegou à psicoterapia. Depois da proibição de 1985, a investigação clínica regressou com ensaios controlados, publicados a partir de 2011.
- 1912. A farmacêutica alemã Merck sintetiza a MDMA como produto intermédio de outra síntese, sem a testar em pessoas. A ideia de que seria um inibidor do apetite não tem apoio nos arquivos da empresa [5].
- 1976–1978. O químico Alexander Shulgin volta a sintetizá-la e publica, com David Nichols, o primeiro artigo sobre os seus efeitos em humanos. Desde 1977, o psicoterapeuta Leo Zeff usa-a como complemento de psicoterapia [6].
- 1985. Com o aumento do uso recreativo, os Estados Unidos colocam a MDMA na lista I de substâncias controladas [2]. Hoje consta também da Tabela I da Convenção das Nações Unidas de 1971 [7].
- 2011–2018. Um primeiro ensaio-piloto aleatorizado com placebo e, depois, ensaios de fase 2 de comparação de doses encontram maior redução de sintomas com a MDMA [8] [9] [10].
- 2021 e 2023. São publicados os ensaios de fase 3 na perturbação de stress pós-traumático [11] [12].
- 2023. A Austrália permite, desde 1 de Julho, que psiquiatras autorizados prescrevam MDMA nesta perturbação [4].
- 2024. Em Junho, o comité consultivo da FDA pronuncia-se contra; em Agosto, a FDA não aprova o pedido [13] [14]. No mesmo mês, uma revista científica retracta artigos baseados nos ensaios de fase 2 [15].
- 2026. Em Agosto de 2026 foi noticiado que o promotor voltou a submeter o pedido à FDA, sem novo ensaio de fase 3; a empresa não o confirmou publicamente e a FDA não anunciou decisão [16] [17].
Como actua a MDMA?
Transportador da serotonina, SERT (estrutura cristalográfica)
A MDMA faz os neurónios libertarem serotonina e noradrenalina e, em menor grau, dopamina [2]. Para isso, inverte o funcionamento dos transportadores destas substâncias, que passam a expulsá-las em vez de as recaptar.
- Serotonina. Em voluntários saudáveis, um antidepressivo que bloqueia o transportador da serotonina reduziu a maioria dos efeitos psicológicos da MDMA [18].
- Oxitocina. A MDMA aumenta a oxitocina no sangue, e essa subida acompanhou os sentimentos de proximidade dos voluntários. É uma associação, não uma explicação demonstrada [19].
- Memórias traumáticas. A hipótese mais citada é que a MDMA reduza a actividade de regiões ligadas ao medo, como a amígdala, e facilite o reprocessamento do trauma. Assenta sobretudo em estudos animais e em voluntários saudáveis [3].
Como decorre a terapia assistida por MDMA nos ensaios?
Nos ensaios de fase 3, o tratamento durou cerca de 18 semanas e alternou sessões sem substância com sessões com MDMA ou placebo. Uma equipa de dois terapeutas acompanhou todas as fases [11] [12].
- Preparação. Sessões sem substância, para criar confiança e preparar a pessoa para as memórias e emoções que podem surgir [11].
- Sessões com MDMA ou placebo. Três sessões de cerca de oito horas, com cerca de um mês de intervalo; os sinais vitais eram medidos antes da alta [11].
- Integração. Sessões de psicoterapia depois de cada sessão com substância, para compreender e elaborar a experiência [12].
Os medicamentos psiquiátricos foram suspensos antes do início, com supervisão médica. Os sintomas foram medidos por avaliadores independentes, que não sabiam o grupo de cada participante [11].
Em que doenças está a ser investigada?
A perturbação de stress pós-traumático é a única doença com ensaios de fase 3. As outras áreas estão numa fase exploratória, com estudos pequenos.
| Condição | Onde foi estudada | Evidência | Fase |
|---|---|---|---|
| Perturbação de stress pós-traumático | Estados Unidos, Canadá e Israel [11] [12] | Ensaios de fase 3 concluídos; não aprovada pela FDA [14] | Fase 3 |
| Stress pós-traumático no casal | Pequeno estudo sem grupo de controlo [20] | Preliminar | Exploratória |
| Ansiedade social em adultos autistas | Estados Unidos, ensaio-piloto [21] | Preliminar | Exploratória |
| Perturbação de uso de álcool | Reino Unido, estudo aberto [22] | Preliminar | Exploratória |
Stress pós-traumático. Nos ensaios de fase 3, os sintomas diminuíram mais com MDMA do que com placebo, e os dois grupos receberam a mesma psicoterapia [11] [12]. No fim do segundo ensaio, mais participantes do grupo da MDMA já não cumpriam critérios de diagnóstico [12].
Outras áreas. Estudos pequenos descreveram melhorias em casais em que um dos membros tinha stress pós-traumático e na ansiedade social de adultos autistas [20] [21]. No uso de álcool, o objectivo principal foi avaliar a segurança [22]. Faltam estudos maiores e controlados.
Quais são os riscos conhecidos?
Nos ensaios, com pessoas seleccionadas e em ambiente controlado, os efeitos adversos mais frequentes foram transitórios: tensão muscular, perda de apetite, náuseas, sudação e sensação de frio [11]. Também foram descritos bruxismo, inquietação e visão turva [12].
- Coração. A MDMA sobe transitoriamente a tensão arterial e a frequência cardíaca; os ensaios excluíram hipertensão não controlada e arritmias [11].
- Temperatura. Nos ensaios houve subidas ligeiras e passageiras [11]; fora do contexto clínico, a hipertermia grave é uma complicação conhecida [23].
- Sódio no sangue. Pode causar hiponatremia, rara mas potencialmente fatal, mais frequente e mais grave em mulheres [24].
- Interacções. Com inibidores da monoamina oxidase pode causar síndrome serotoninérgica, com mortes descritas [25] [26]. Os inibidores selectivos da recaptação da serotonina atenuam os seus efeitos [18].
- Produtos ilícitos. Amostras analisadas em vários países europeus, incluindo Portugal, mostraram pureza variável e novas substâncias psicoactivas misturadas [27].
Os ensaios excluíram pessoas com doenças psicóticas, perturbação bipolar tipo I, gravidez ou perturbações de uso de substâncias activas [11]. Os resultados não se aplicam a estes casos.
Qual é o estatuto legal da MDMA?
Nenhum medicamento com MDMA está autorizado na União Europeia nem em Portugal [28]. A nível internacional, a MDMA está sujeita ao controlo mais restritivo.
- Nações Unidas. Tabela I da Convenção sobre Substâncias Psicotrópicas de 1971 [7].
- Portugal. Consta da tabela II-A do Decreto-Lei n.º 15/93; fora de investigação autorizada, o seu uso não tem enquadramento como tratamento [29] [30].
- Austrália. Desde 1 de Julho de 2023, psiquiatras autorizados podem prescrevê-la no stress pós-traumático, com aprovação de uma comissão de ética; a agência reguladora sublinha que não avaliou nenhum produto com MDMA [4].
- Estados Unidos. Continua na lista I federal e não está aprovada pela FDA [31] [14]. Em Agosto de 2026 foi noticiado que o promotor voltou a submeter o pedido à FDA, sem novo ensaio de fase 3; a empresa não o confirmou publicamente e a FDA não anunciou decisão [16] [17].
O que ainda está em investigação
A investigação concentra-se agora nas perguntas que a FDA e o seu comité consultivo destacaram em 2024 [14] [13]. As respostas vão ajudar a perceber o lugar real da terapia assistida por MDMA.
- Ocultação e expectativa. Os efeitos da MDMA são fáceis de reconhecer, e a maioria dos participantes percebia em que grupo estava [12]. Os novos desenhos procuram medir a expectativa desde o início [14].
- Durabilidade. Quanto tempo dura o benefício e se o tratamento precisa de ser repetido [14].
- Dados de segurança. Registo completo dos efeitos adversos, análises laboratoriais e avaliação cardíaca [14].
- Potencial de abuso. Recolha adequada dos efeitos sentidos como «positivos», necessária para avaliar este risco [14].
- Papel da psicoterapia. Quanto do benefício vem da MDMA e quanto da psicoterapia; membros do comité sugeriram um desenho factorial para o separar [13].
- Quem participa. Muitos participantes já tinham tomado MDMA, o que limita a generalização; a FDA sugeriu reduzir essa proporção [14].
A FDA indicou como caminho um novo ensaio aleatorizado, com dupla ocultação e seguimento mais longo [14]. Até lá, a terapia assistida por MDMA continua a ser um tratamento em investigação.
Conteúdo revisto pela equipa clínica da KETAMED®, sob direcção médica, a .
Referências
31
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- Lei n.º 13/2012, de 26 de Março: altera o Decreto-Lei n.º 15/93 e republica as tabelas anexas; a MDMA consta da tabela II-A. infarmed.pt (abre num novo separador)Legislação
- Code of Federal Regulations dos Estados Unidos, Título 21, § 1308.11 (lista I), versão em vigor: «3,4-methylenedioxymethamphetamine (MDMA)», código 7405 da DEA. ecfr.gov (abre num novo separador)Legislação