LSD
O LSD (dietilamida do ácido lisérgico) é um psicadélico sintético que, em quantidades muito pequenas, altera de forma intensa a percepção, o pensamento e as emoções durante muitas horas [1]. Actua sobretudo no receptor 5-HT2A da serotonina, e a terapia assistida por LSD voltou a ser estudada em ensaios clínicos, principalmente na ansiedade. Não é um medicamento autorizado na União Europeia nem em Portugal.
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O que é a terapia assistida por LSD?
A terapia assistida por LSD é um modelo de tratamento em investigação: uma ou poucas doses, dadas num ambiente clínico controlado, com acompanhamento antes, durante e depois da sessão [2] [3]. Não se trata de uma toma diária.
O formato varia. Em alguns estudos, a experiência é depois trabalhada em consultas de psicoterapia [2]; noutros, a psicoterapia é excluída e os participantes são apenas vigiados [4].
Por isso, os resultados de um modelo não se transferem automaticamente para o outro.
Qual é a história do LSD?
Cravagem do centeio, Medizinal-Pflanzen de Köhler, 1890
A história do LSD na medicina começa num laboratório suíço, passa por duas décadas de investigação psiquiátrica e por uma longa interrupção. Os ensaios clínicos só foram retomados no século XXI.
- 1938. Albert Hofmann sintetiza o LSD nos laboratórios da Sandoz [5].
- 1943. Hofmann descobre, por acidente, os seus efeitos psicológicos [1].
- 1947. A semelhança com sintomas da esquizofrenia leva ao seu uso como «modelo de psicose» [6].
- 1949–1966. A Sandoz fornece-o a psiquiatras e investigadores, como auxiliar da psicoterapia [6].
- Décadas de 1950 e 1960. Investigação extensa na ansiedade de doentes com cancro terminal, na dependência de álcool e de opióides e na depressão [5] [6].
- 1968–1971. Com a difusão do uso recreativo, chega a proibição nos Estados Unidos e na Convenção das Nações Unidas de 1971; a investigação clínica pára [7] [1] [8].
- 2014. Regresso na Suíça, com o primeiro ensaio controlado de psicoterapia assistida por LSD em mais de quatro décadas [2].
- 2023–2026. Novos ensaios de fase 2 na Suíça e nos Estados Unidos e, em 2026, resultados de fase 3 comunicados pelo promotor [3] [4] [9].
Como actua o LSD?
LSD ligado ao receptor 5-HT2A da serotonina (estrutura cristalográfica)
O LSD liga-se a vários receptores da serotonina e da dopamina, mas o alvo principal é o receptor 5-HT2A, onde actua como agonista parcial [5] [6]. Este receptor parece essencial: em voluntários saudáveis, bloqueá-lo antes do LSD impediu os efeitos subjectivos e as alterações da conectividade cerebral [10] [11].
A longa duração pode ter uma explicação estrutural: o LSD solta-se muito lentamente do receptor, que parece fechar-se sobre a molécula como uma «tampa» [12]. Pessoas com menor actividade genética da enzima hepática CYP2D6 têm efeitos mais prolongados [13].
Durante o efeito, a neuroimagem mostra redes cerebrais menos coesas e mais comunicação entre redes que costumam funcionar separadas [14]. Se isto explica algum benefício clínico é ainda uma hipótese.
Como decorrem os protocolos de investigação?
Nos ensaios, o LSD é dado em poucas sessões, em regra uma ou duas, sempre com acompanhamento profissional [3] [4]. Cada sessão ocupa um dia inteiro e segue passos semelhantes.
- Preparação: avaliação médica e psiquiátrica e sessões preparatórias para criar uma relação de confiança; alguns medicamentos psiquiátricos são retirados gradualmente [2] [15].
- Sessão: ambiente físico seguro, com pelo menos dois profissionais presentes de forma contínua [15] [4].
- Vigilância: medem-se a tensão arterial e a frequência cardíaca, registam-se os acontecimentos adversos e a condução é interdita depois da sessão [2].
- Integração: consultas sem substância para rever e integrar a experiência, nos protocolos que incluem psicoterapia [2].
Em que doenças está a ser investigado?
O LSD tem sido investigado sobretudo na ansiedade, em ensaios controlados na Suíça e nos Estados Unidos. A dependência de álcool foi estudada em ensaios antigos, e há dados de fase 3 do promotor ainda por publicar.
| Condição | Onde foi estudada | Evidência | Fase |
|---|---|---|---|
| Perturbação de ansiedade generalizada | Estados Unidos [4]; estudos do promotor [16] [9] | Fase 3 com dados do promotor, por publicar | Fase 3 |
| Ansiedade, com ou sem doença grave | Suíça [2] [3] | Ensaios controlados, ainda limitados | Fase 2 |
| Perturbação depressiva major | Estudo do promotor [9] | Fase 3 com dados do promotor, por publicar | Fase 3 |
| Dependência de álcool | Revisão de 2012 de ensaios antigos [17] | Ensaios antigos, com limitações | Histórica |
Na ansiedade generalizada, um ensaio de fase 2b mostrou que uma dose única reduziu a ansiedade mais do que o placebo; as doses mais baixas não se distinguiram do placebo [4]. Nos ensaios suíços, a melhoria manteve-se durante meses [2] [3].
O promotor comunicou como positivos os estudos de fase 3, mas os dados ainda não foram publicados com revisão por pares [16] [9]. A FDA, agência norte-americana do medicamento, atribuiu-lhe a designação Breakthrough Therapy, que acelera o desenvolvimento mas não equivale a aprovação [9] [18].
Na dependência de álcool, os ensaios antigos associaram uma dose única a menor consumo problemático, mas têm limitações de método [17] [2].
Quais são os riscos?
Durante o efeito são frequentes alterações visuais e náuseas, e a tensão arterial e a frequência cardíaca sobem moderadamente [4] [10]. Os riscos mais importantes são psicológicos.
- Angústia intensa durante a sessão, o risco mais provável, que pode levar a comportamentos perigosos [15].
- Psicose prolongada, menos frequente [15].
- Alterações persistentes da percepção, em que efeitos visuais regressam depois da sessão; são pouco frequentes e descritas sobretudo após uso ilícito [19].
- Interacções: um antidepressivo inibidor selectivo da recaptação da serotonina aumentou as concentrações de LSD [20]; relatos de baixa qualidade associam psicadélicos com lítio a convulsões [21].
Contra-indicações. Os ensaios excluem pessoas com história pessoal ou familiar de psicose ou de outras perturbações psiquiátricas graves, perturbação bipolar tipo I, dependência actual de álcool ou drogas, gravidez e amamentação [15] [2].
Fora de um contexto médico vigiado, as complicações surgem com mais facilidade [5].
Qual é o enquadramento legal?
O LSD é uma substância controlada a nível internacional e em Portugal. Não há nenhum medicamento com LSD aprovado na União Europeia, em Portugal ou nos Estados Unidos.
- União Europeia: nenhum medicamento com LSD foi avaliado pela Agência Europeia de Medicamentos [22]; internacionalmente, está na Tabela I da Convenção de 1971 [8].
- Portugal: a lisergida (LSD) consta da tabela II-A do Decreto-Lei n.º 15/93 [23] [24]; a descriminalização do consumo não a tornou legal [25].
- Suíça: o Serviço Federal de Saúde Pública pode autorizar, caso a caso e a pedido do médico, o uso médico limitado de LSD, com consentimento escrito do doente [26] [27].
- Estados Unidos: continua na Tabela I [28]; o promotor prevê pedir autorização à FDA em 2027 [9].
O que ainda está em investigação
A investigação sobre o LSD avança em várias direcções. As próximas etapas deverão esclarecer quem beneficia, durante quanto tempo e em que condições.
- Confirmação da fase 3: publicação com revisão por pares e avaliação regulamentar dos resultados comunicados [9].
- Papel da expectativa: desenhos de ensaio em que os efeitos evidentes do LSD não revelem o grupo atribuído [4] [29].
- Duração do benefício: seguimentos mais longos, em grupos maiores [3] [2].
- Contributo da psicoterapia: comparação de protocolos com e sem acompanhamento psicoterapêutico [2] [4].
- Interacções: combinação com outros medicamentos psiquiátricos [20].
- Mecanismo: relação entre as alterações cerebrais durante o efeito e o benefício clínico.
Conteúdo revisto pela equipa clínica da KETAMED®, sob direcção médica, a .
Referências
29
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