Uma notícia sobre um ensaio clínico, um relato nas redes sociais e um inquérito sobre consumo respondem a perguntas diferentes. Podem referir a mesma substância, mas não descrevem a mesma realidade. Para compreender a presença dos psicadélicos na Europa, é necessário saber quem está a ser observado, durante que período e com que método.
Estas questões foram abordadas na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa por João Matias, da Agência da União Europeia sobre Drogas, no âmbito do curso «Introdução à Terapia com Psicadélicos: Investigação e Clínica». Este artigo desenvolve o tema com base em fontes institucionais, sem atribuir ao interveniente declarações não documentadas.
João Matias e a leitura epidemiológica do consumo
João Matias integra a equipa científica da EUDA, a agência que sucedeu ao Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência. Na conferência Lisbon Addictions 2024, a própria agência indica que moderou as sessões sobre tendências do consumo de drogas e sobre métodos inovadores para compreender os mercados e as políticas de drogas. EUDA — participação da agência na Lisbon Addictions 2024.
Esta perspectiva é particularmente útil quando a discussão pública avança mais depressa do que os sistemas de observação. Um aumento de interesse pode existir sem que saibamos ainda medir a sua dimensão. Também pode haver mudanças num grupo específico que não representam a população em geral. A tarefa epidemiológica consiste em tornar explícitas estas diferenças.
Uma fotografia europeia com anos e populações diferentes
O Relatório Europeu sobre Drogas de 2026 apresenta resultados de inquéritos nacionais com diferentes datas e intervalos etários. Entre os exemplos de consumo de cogumelos alucinogénios no último ano encontram-se 2,7% na Chéquia, em 2024, e 2,5% nos Países Baixos, também em 2024, entre jovens adultos (15 a 34 anos). Estes valores nacionais não constituem uma média europeia. EUDA — outras drogas, relatório de 2026.
Antes de comparar países, importa verificar se os grupos etários coincidem, se o questionário usa a mesma definição e se o período observado é semelhante. Uma diferença aparente pode reflectir uma mudança real, uma diferença de método ou ambas. A data de publicação do relatório também não é necessariamente a data de recolha de cada indicador.
«Alguma vez na vida» mede algo diferente de «nos últimos doze meses». Nenhuma destas medidas, isoladamente, informa sobre frequência, circunstâncias de consumo ou necessidade de apoio. Um artigo responsável deve manter o denominador junto do número e explicar o que esse número permite concluir.
Um inquérito online não representa toda a população
O European Web Survey on Drugs de 2024 usou uma amostra de participação voluntária de pessoas que usam drogas. Os resultados para respondentes de 24 países da UE e da Noruega incluíram 18% a reportar cogumelos alucinogénios ou trufas e 14% um anestésico dissociativo no último ano. Não são estimativas de consumo na população europeia geral. EUDA — resultados do inquérito e enquadramento metodológico.
Este exemplo mostra como um dado correcto pode gerar uma mensagem errada. Ao retirar a definição da amostra, transforma-se uma observação sobre participantes de um inquérito numa afirmação sobre milhões de pessoas que não foram representadas por ele. A transparência metodológica deve fazer parte da notícia, não ficar escondida numa nota técnica.
Consumo, experiência e tratamento são dimensões distintas
A categoria «psicadélicos» agrega substâncias e contextos diferentes. A EUDA distingue psicadélicos clássicos de outras substâncias frequentemente incluídas neste debate, como dissociativos e entactogénios. O que se sabe sobre o uso médico da cetamina e escetamina, os anestésicos dissociativos mais estudados em psiquiatria, está resumido numa página própria. A sua FAQ de 2024 também descreve a dificuldade em acompanhar práticas não reguladas apresentadas como terapêuticas ou de bem-estar. EUDA — FAQ sobre utilização terapêutica.
Para análise pública, importa separar participação num ensaio, tratamento enquadrado, consumo recreativo e experiência em retiro. Se estes contextos forem reunidos numa única contagem, perde-se informação sobre supervisão, objectivos e responsabilidades. A intenção de obter alívio emocional não torna uma prática equivalente a cuidados clínicos.
É igualmente necessário separar popularidade de eficácia. Um aumento de consumo não demonstra benefício terapêutico. Uma melhoria observada num estudo clínico não permite concluir que o consumo fora desse contexto tem os mesmos resultados. A saúde pública precisa de acompanhar estes dois planos, sem os confundir.
Que perguntas devem acompanhar os próximos números?
Uma leitura mais útil começa por perguntas concretas: a substância foi identificada com confiança? O dado refere pessoas, episódios ou serviços? A recolha inclui apenas quem respondeu voluntariamente? Há informação sobre consequências negativas e sobre procura de cuidados? O método consegue captar grupos que habitualmente não aparecem nos inquéritos?
Estas perguntas também ajudam a avaliar o silêncio dos dados. Ausência de informação não equivale a ausência de risco. Mas um sinal isolado também não basta para afirmar que existe uma epidemia. A comunicação deve resistir tanto ao entusiasmo indiscriminado como ao alarmismo.
Formação para compreender uma realidade em mudança
A discussão destes temas na FMUL reforça o valor de uma formação que combina clínica, investigação e saúde pública. Antes de decidir como responder a um fenómeno, é necessário descrevê-lo com cuidado. Isso exige métodos, linguagem clara e capacidade para reconhecer o que ainda não sabemos.
O contributo epidemiológico associado ao percurso de João Matias recorda que os números são ferramentas de compreensão. Para se tornarem úteis, devem conservar contexto. Num campo com grande visibilidade pública, a precisão do denominador, da data e da população é uma forma essencial de rigor.