Uma doença que ameaça a vida pode alterar a relação com o tempo, com o corpo e com aquilo que dá sentido ao quotidiano. Para além dos sintomas físicos, surgem perguntas difíceis: como viver com a incerteza, como falar com a família, como lidar com a perda de autonomia e com a possibilidade da morte? A investigação sobre psilocibina neste contexto procura perceber se uma intervenção acompanhada pode ajudar algumas pessoas a enfrentar esse sofrimento emocional.
Este foi um dos temas abordados na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, no âmbito do curso «Introdução à Terapia com Psicadélicos: Investigação e Clínica». A participação de William A. Richards trouxe a este contexto universitário a experiência de um investigador ligado à história da psicoterapia com psicadélicos. O presente artigo enquadra o tema através de fontes publicadas; não é uma transcrição da sua intervenção.
Um percurso entre psicologia e investigação da experiência humana
William Richards é psicólogo clínico no Johns Hopkins Bayview Medical Center, com trabalho associado à investigação de psicadélicos na Johns Hopkins, e tem formação em teologia e religião comparada. No início da carreira fez investigação com psicadélicos em Baltimore, no Spring Grove Hospital Center e no Maryland Psychiatric Research Center. É autor do livro Sacred Knowledge (2015). Estas referências ajudam a situar um percurso que atravessa várias décadas e diferentes abordagens à experiência humana. Nota biográfica — Columbia University Press.
Esse percurso merece ser compreendido sem o reduzir à figura de um «pioneiro». O interesse editorial está na ligação entre observação clínica, perguntas de investigação e atenção ao modo como as pessoas descrevem o que viveram. Uma experiência subjectivamente importante pode constituir um ponto de partida para investigação; não dispensa métodos que permitam avaliar benefícios, riscos e diferenças entre participantes.
O que os estudos em pessoas com cancro investigaram
Em 2016, um ensaio da Johns Hopkins com 51 participantes com cancro potencialmente fatal encontrou reduções de depressão e ansiedade após psilocibina. O estudo, aleatorizado, em dupla ocultação e cruzado, comparou uma dose alta com uma dose muito baixa de psilocibina, usada como placebo, e incluiu seguimento de seis meses. William Richards integrou a equipa de autores. Griffiths e colaboradores, 2016.
No mesmo ano, um ensaio aleatorizado e em dupla ocultação da New York University, com 29 participantes, comparou psilocibina e niacina (usada como controlo activo), com psicoterapia nos dois casos. Também encontrou melhorias em sintomas relacionados com ansiedade e depressão. Ross e colaboradores, 2016.
É importante perceber a pergunta destes trabalhos: investigaram sofrimento psicológico associado ao cancro. Não demonstraram que a psilocibina trata o tumor, altera o prognóstico oncológico ou prolonga a vida. Também não permitem concluir que todas as pessoas em cuidados paliativos beneficiariam da intervenção. «Doença potencialmente fatal» e «últimos dias de vida» não designam a mesma população. O que se sabe sobre esta substância está resumido na página sobre a psilocibina.
O tempo importa — e também os limites do seguimento
Um seguimento publicado em 2020 voltou a avaliar parte dos participantes do estudo da NYU e descreveu persistência de benefícios. O número reduzido de pessoas reavaliadas e a ausência de uma nova comparação controlada limitam a interpretação. Agin-Liebes e colaboradores, 2020.
Mais recentemente, um estudo publicado em 2025 na revista Cancer descreveu o seguimento a dois anos de um ensaio de fase 2 com 30 pessoas com cancro e depressão major, que receberam uma dose única de psilocibina com apoio psicológico. O ensaio foi aberto e de braço único, sem grupo de controlo, e 28 participantes foram reavaliados aos dois anos. A continuidade da investigação é relevante, mas não transforma automaticamente estudos pequenos numa resposta definitiva. Agrawal e colaboradores, 2025.
Para ler esta literatura, vale a pena perguntar quantas pessoas participaram, quem ficou excluído, como foi medido o sofrimento e o que aconteceu a quem não melhorou. A duração de uma melhoria é importante; a possibilidade de a reproduzir em contextos diferentes também é. Nos ensaios controlados, os efeitos subjectivos intensos da psilocibina dificultam a ocultação: participantes e equipas podem perceber qual a intervenção recebida, mesmo quando se usa um comparador activo, como a niacina ou uma dose muito baixa de psilocibina. Isso pode influenciar expectativas e avaliações, e deve pesar na interpretação dos resultados.
Sentido, espiritualidade e liberdade de interpretação
As perguntas existenciais não exigem uma resposta religiosa. Para uma pessoa, sentido pode significar reconciliação com alguém; para outra, proximidade com a família, autonomia, continuidade de um projecto ou simplesmente um dia com menos medo. Uma abordagem clínica respeitadora deve deixar espaço a estas diferenças.
O termo «espiritual» pode descrever questões de sentido e ligação, sem pressupor uma crença específica. Não deve ser usado para impor uma interpretação à pessoa nem para apresentar experiências psicadélicas como revelações objectivas sobre a morte. No contexto clínico, interessa compreender a experiência e o seu impacto na vida, respeitando valores, dúvidas e convicções individuais.
Uma pergunta dentro dos cuidados, não fora deles
A Organização Mundial da Saúde enquadra os cuidados paliativos como uma resposta ao sofrimento físico, psicológico, social e espiritual. Este enquadramento recorda que o apoio à pessoa com doença grave deve ser abrangente. OMS — cuidados paliativos.
A investigação de uma intervenção nova deve dialogar com esse cuidado. Não deve conduzir à desvalorização de apoio psicológico, controlo de sintomas ou acompanhamento familiar. Para quem enfrenta doença grave, uma promessa excessiva pode ser particularmente prejudicial: acrescenta pressão para «ter uma boa experiência» ou para encontrar uma solução que pode não ser apropriada.
Porque importa estudar este tema na FMUL
Trazer esta discussão para uma formação universitária permite cruzar leitura científica, experiência clínica e reflexão ética. A pergunta não é apenas se uma intervenção produz uma alteração intensa da consciência, mas se pode reduzir sofrimento de forma clinicamente significativa, para quem, em que condições e com que acompanhamento.
O contributo de William Richards ajuda a situar estas perguntas numa história longa. O compromisso que deve orientar o seu desenvolvimento é actual: investigar com rigor e tratar cada pessoa com dignidade. A informação aqui apresentada tem finalidade educativa.