DMT e ayahuasca

A DMT (N,N-dimetiltriptamina) é uma molécula psicadélica da família das triptaminas, presente em muitas plantas e animais [1]. A ayahuasca é uma bebida tradicional da Amazónia que contém DMT e outras substâncias vegetais que a tornam activa quando é ingerida. A diferença entre DMT e ayahuasca é, por isso, a de uma molécula isolada, com efeitos de minutos, e uma preparação de plantas, com efeitos de várias horas.

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Modelo 3D da DMT
DMT

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Qual a diferença entre DMT e ayahuasca?

A DMT é uma substância química definida. A ayahuasca é uma decocção de plantas, cuja composição varia com as espécies e o modo de preparação [2] [3].

  • Plantas. A receita mais conhecida junta a liana Banisteriopsis caapi, que fornece os alcalóides harmala (harmina, harmalina e tetra-hidro-harmina), às folhas de Psychotria viridis, que fornecem a DMT [2].
  • Porque se juntam. Engolida sozinha, a DMT é destruída pela enzima MAO no intestino e no fígado; os alcalóides harmala inibem a MAO-A e deixam-na chegar à circulação [3] [4].
  • Duração. Por via intravenosa, a DMT actua em segundos e o efeito dissipa-se em minutos [5]. A ayahuasca demora mais a actuar e os efeitos duram cerca de quatro horas [6] [7].
  • Riscos. Por conter inibidores da MAO, a ayahuasca tem riscos de interacção que a DMT inalada ou injectada não tem no mesmo grau [8].

Por isso, os resultados de uma não se transpõem automaticamente para a outra.

O que é a terapia assistida com DMT ou ayahuasca?

Recriação encenada de uma sessão de investigação: uma pessoa deitada numa cama clínica, com máscara nos olhos e coberta por uma manta, acompanhada por um investigador sentado ao lado, numa sala de luz suave com plantas.

Recriação de uma sessão num estudo com DMT (contexto de investigação)

É um protocolo de investigação que junta selecção médica cuidadosa, uma ou poucas sessões com a substância em ambiente controlado e acompanhamento por profissionais treinados [9].

Inclui preparação antes da sessão e sessões de integração depois. Por agora, só existe em estudos clínicos: nenhuma das duas está autorizada como medicamento na União Europeia [10].

Qual é a história da DMT e da ayahuasca?

Retrato antigo a sépia de Richard Spruce, homem idoso de barba branca, óculos e chapéu claro de abas.

Richard Spruce, botânico que estudou a ayahuasca na Amazónia

A ayahuasca tem uma longa história de uso tradicional e religioso; a DMT só foi sintetizada no século XX e estudada em pessoas a partir dos anos 1950.

  • Uso tradicional. Povos indígenas da bacia amazónica usam a ayahuasca com fins de cura e espirituais [7].
  • 1931. O químico Richard Manske sintetiza a DMT, sem estudar os seus efeitos no ser humano [11].
  • Anos 1930. A ayahuasca entra em contextos religiosos no Brasil; várias igrejas sincréticas usam-na hoje como sacramento [7] [3].
  • 1946. Oswaldo Gonçalves de Lima identifica a DMT numa planta, ao estudar o «vinho de jurema» do povo Pankararu, em Pernambuco [12].
  • 1956. O psiquiatra húngaro Stephen Szára descreve os efeitos psicadélicos da DMT, que injectou em si próprio [13].
  • 1971. A DMT entra na Tabela I da Convenção das Nações Unidas sobre as Substâncias Psicotrópicas [14].
  • 1994. Rick Strassman, nos Estados Unidos, publica estudos com DMT intravenosa em voluntários [15].
  • 2015–2026. Investigação clínica na depressão: com ayahuasca no Brasil [16] [7] e com DMT no Reino Unido [9].

Como actuam a DMT e a ayahuasca?

Diagrama em fitas da monoamina oxidase A humana (PDB 2BXS), a azul, vermelho e verde, ancorada à membrana mitocondrial externa, com o cofactor FAD e um inibidor ligados no centro.

Monoamina oxidase A, MAO-A (estrutura molecular)

A DMT actua sobretudo no receptor de serotonina 5-HT2A, o alvo comum dos psicadélicos clássicos [17]. O organismo elimina-a muito depressa, o que explica a brevidade do efeito quando é injectada [9].

Na ayahuasca, os alcalóides harmala travam a degradação da DMT sobretudo no intestino e no fígado; os efeitos acompanham a subida da DMT no sangue [6].

Estudos de imagem e de electroencefalografia mostram mudanças na actividade cerebral durante a experiência [18] [19]. Descrevem o que muda no cérebro, mas ainda não explicam porque é que os sintomas melhoram.

Como decorrem as sessões nos estudos?

As sessões decorrem em ambiente hospitalar ou de investigação, com avaliação médica prévia e vigilância contínua.

  • Ayahuasca. Uma toma única, numa sala calma, com luz baixa e música escolhida previamente; investigadores por perto e nova avaliação psiquiátrica no fim [7].
  • DMT intravenosa. Internamento de uma noite, preparação com dois terapeutas na véspera, perfusão curta com terapeutas presentes e sessões de integração nos dias e semanas seguintes [9].
  • Medicação. Os medicamentos psiquiátricos são suspensos semanas antes da sessão, com um intervalo maior para os inibidores da MAO [9].
  • Outras formas. Estuda-se também a DMT inalada [8] e a perfusão contínua, que prolonga a experiência [20].

Em que doenças estão a ser investigadas?

A depressão é a área com mais investigação, tanto com ayahuasca como com DMT. Os estudos são ainda pequenos e de curta duração.

DMT e ayahuasca: condições em investigação
CondiçãoOnde foi estudadaEvidênciaFase
Depressão resistenteAyahuasca no Brasil [7]; DMT inalada [8]Ensaios controlados, ainda limitadosFase 2
Perturbação depressiva majorDMT intravenosa no Reino Unido [9]Ensaios controlados, ainda limitadosFase 2
Depressão recorrenteAyahuasca no Brasil, estudos abertos [16] [19]PreliminarExploratória
DependênciasHipótese a partir de membros de igrejas ayahuasqueiras [3]Sem ensaios clínicosExploratória

Nos ensaios controlados, os sintomas melhoraram mais do que com placebo nos dias e semanas seguintes [7] [9]. Uma análise secundária descreveu também menos ideação suicida, que precisa de confirmação [21].

Quais são os riscos e as interacções?

Em contexto clínico, os efeitos adversos foram sobretudo passageiros. O risco mais sério é a interacção da ayahuasca com antidepressivos.

  • Ayahuasca. Náuseas e vómitos são frequentes [7]; a tensão arterial pode subir ligeiramente [6].
  • DMT intravenosa. Dor no local da perfusão, náuseas, ansiedade passageira e subidas transitórias da tensão arterial e da frequência cardíaca, sem acontecimentos adversos graves no ensaio [9] [15].
  • Interacções. Combinados com antidepressivos serotoninérgicos, os inibidores da MAO da ayahuasca podem causar uma síndrome serotoninérgica potencialmente grave [22]. Qualquer medicamento ou suplemento deve ser revisto por um médico.
  • Quem fica de fora. Os estudos excluem pessoas com psicose ou perturbação bipolar (pessoal ou familiar), gravidez, doença médica relevante ou risco suicida; nestes grupos, a segurança não é conhecida [7] [9] [23].
  • Fora de contexto clínico. Num grande inquérito internacional, a maioria dos consumidores relatou efeitos físicos agudos, sobretudo vómitos, e uma pequena minoria precisou de cuidados médicos [24]. Numa bebida preparada fora de um estudo, a composição não é conhecida [3].

O que ainda está em investigação

Os próximos estudos procuram confirmar os primeiros resultados e responder a perguntas práticas.

  • Se os resultados se mantêm em ensaios maiores e mais longos [7] [9].
  • Quanto tempo dura o benefício [9].
  • Que parte do efeito se deve às expectativas, já que os efeitos são difíceis de disfarçar [30].
  • Que papel tem o acompanhamento psicológico no resultado [9].
  • Se o que se aprende com a DMT pura vale para a ayahuasca, de composição variável [3].
  • Como se comportam ambas em pessoas hoje excluídas dos estudos e em quem toma outros medicamentos.

Conteúdo revisto pela equipa clínica da KETAMED®, sob direcção médica, a .

Como funciona a avaliação

Referências

30
  1. Cameron LP, Olson DE. Dark classics in chemical neuroscience: N,N-dimethyltryptamine (DMT). ACS Chem Neurosci. 2018;9(10):2344–2357. doi:10.1021/acschemneuro.8b00101 (abre num novo separador)Revisão
  2. McKenna DJ, Towers GH, Abbott F. Monoamine oxidase inhibitors in South American hallucinogenic plants: tryptamine and beta-carboline constituents of ayahuasca. J Ethnopharmacol. 1984;10(2):195–223. doi:10.1016/0378-8741(84)90003-5 (abre num novo separador)Estudo
  3. McKenna DJ. Clinical investigations of the therapeutic potential of ayahuasca: rationale and regulatory challenges. Pharmacol Ther. 2004;102(2):111–129. doi:10.1016/j.pharmthera.2004.03.002 (abre num novo separador)Revisão
  4. Callaway JC, McKenna DJ, Grob CS, et al. Pharmacokinetics of Hoasca alkaloids in healthy humans. J Ethnopharmacol. 1999;65(3):243–256. doi:10.1016/s0378-8741(98)00168-8 (abre num novo separador)Estudo
  5. Strassman RJ, Qualls CR, Uhlenhuth EH, Kellner R. Dose-response study of N,N-dimethyltryptamine in humans. II. Subjective effects and preliminary results of a new rating scale. Arch Gen Psychiatry. 1994;51(2):98–108. doi:10.1001/archpsyc.1994.03950020022002 (abre num novo separador)Ensaio clínico
  6. Riba J, Valle M, Urbano G, et al. Human pharmacology of ayahuasca: subjective and cardiovascular effects, monoamine metabolite excretion, and pharmacokinetics. J Pharmacol Exp Ther. 2003;306(1):73–83. doi:10.1124/jpet.103.049882 (abre num novo separador)Ensaio clínico
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  25. Órgão Internacional de Controlo de Estupefacientes (INCB). Lista Verde: substâncias psicotrópicas sob controlo internacional nos termos da Convenção de 1971. 36.ª edição, 2025 (DMT na Tabela I). incb.org (abre num novo separador)Fonte regulamentar
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