A terapia assistida por psicadélicos tem atraído atenção crescente, entre a esperança e o exagero. Um guia para o público do McLean Hospital, um hospital psiquiátrico de Massachusetts, explica em linguagem simples como funciona, que substâncias estão em estudo, que resultados existem e que riscos e limites convém conhecer.
O que pretende o guia?
O guia propõe-se explicar, em linguagem acessível, como os psicadélicos poderão tratar várias perturbações mentais, o que diz a investigação recente, qual é o seu estatuto legal e como a terapia é conduzida de forma profissional e segura. Não tem autor identificado; a versão actual indica um médico colaborador.
Como explica a terapia?
Descreve a terapia assistida por psicadélicos como o uso controlado destas substâncias para complementar sessões de acompanhamento psicológico. Em termos simples, explica que actuam em receptores de serotonina no cérebro, que podem perturbar temporariamente uma rede cerebral chamada default mode network e que poderão favorecer a neuroplasticidade.
Sublinha que não se trata de uma toma isolada. O processo descrito inclui uma consulta inicial, consentimento informado, duas a três sessões com supervisão profissional e trabalho de integração e de terapia continuada depois delas.
Que substâncias aborda?
O guia trata a psilocibina, a MDMA, o LSD e a DMT (incluindo a ayahuasca), e ainda um anestésico dissociativo com propriedades psicadélicas, que já é usado em contexto clínico. Os mecanismos e o estatuto de cada uma estão descritos na nossa página de substâncias em investigação, por isso não os repetimos aqui. A evidência e o enquadramento da cetamina e escetamina têm uma página própria.
Que resultados apresenta?
- Depressão. Refere estudos com psilocibina, incluindo um publicado em 2022 no Journal of Psychopharmacology com efeitos que se mantinham até um ano, e um estudo no JAMA com uma dose única associada a psicoterapia.
- Perturbação de stress pós-traumático. Descreve um ensaio de 2021 com 90 participantes em que, no fim, 67% do grupo tratado com MDMA já não cumpria critérios de diagnóstico, contra 32% do grupo placebo.
- Ansiedade e fim de vida. Afirma que uma dose única de psilocibina pode reduzir a ansiedade de forma duradoura e menciona o medo existencial no fim de vida, sem identificar os estudos.
- Dependências e perturbações do comportamento alimentar. Refere resultados preliminares no desejo de consumir álcool e apresenta as restantes aplicações como possibilidades, sem dados.
- Anestésico dissociativo. Indica efeito em menos de 24 horas na depressão resistente, mas nota que, em geral, só foi estudado até seis semanas, pelo que os efeitos a longo prazo não estão demonstrados.
Que riscos aponta?
O guia descreve as reacções agudas difíceis (pânico, medo intenso, aumento da frequência cardíaca e da tensão arterial, náuseas) e lista outros riscos: sofrimento psicológico agudo, revivescências (flashbacks), interacções com outros medicamentos, agravamento de doenças prévias, potencial de uso indevido, que o guia considera pouco provável, e falta de regulação padronizada. Alerta ainda para a contaminação de substâncias obtidas ilegalmente e insiste que ninguém deve tomá-las sem o apoio de um profissional treinado.
Reconhece também limites da investigação: «os efeitos terapêuticos dos psicadélicos ainda não são bem compreendidos» (tradução nossa; o original está no cartão da fonte). Explica que, mesmo em estudos em dupla ocultação, os participantes e os investigadores costumam perceber quem recebeu a substância, o que pode inflacionar os benefícios relatados.
Que conclusões tira?
As conclusões são optimistas: o guia considera que, embora a investigação esteja numa fase inicial, a terapia com psicadélicos pode vir a ser uma ferramenta terapêutica valiosa e, eventualmente, uma opção de tratamento reconhecida e legal.
Como ler este guia
Comentário da KETAMED. É um texto de divulgação, sem autor identificado, e algumas afirmações aparecem sem referência ou de forma simplificada, como a afirmação de que menos de 0,1% dos participantes teve efeitos adversos ou a ideia de que os psicadélicos aumentam os níveis de serotonina. O tom é mais optimista do que o título deixa supor. O ensaio de 2021 com MDMA é um estudo aleatorizado e controlado com placebo, mas de dimensão modesta; a decisão regulamentar norte-americana posterior sobre a MDMA, que o guia não refere, está resumida na página sobre a MDMA.
O que significa em Portugal
Comentário da KETAMED. O enquadramento legal descrito no guia é exclusivamente o dos Estados Unidos. Em Portugal, a psilocibina, a MDMA, o LSD e a DMT são substâncias controladas e não estão autorizadas como medicamentos; fora de ensaios clínicos autorizados, não estão disponíveis como tratamento. Na página de evidência científica separamos o que está em investigação, o que tem resultados positivos e o que está efectivamente aprovado.