A psiquiatria voltou a estudar os psicadélicos, e o interesse público cresceu ainda mais depressa. Este texto, publicado na Saúde Online em 2023, pergunta o que pode correr mal quando o entusiasmo se antecipa à prática clínica, e o que é preciso para que estas experiências sejam terapêuticas.

Qual é a questão?

O artigo parte de uma mudança: a psiquiatria, que durante décadas manteve os psicadélicos à margem, voltou a estudá-los. O autor refere que estudos com psilocibina e MDMA mostraram resultados notáveis na depressão resistente ao tratamento e na perturbação de stress pós-traumático.

A questão que levanta é outra: o que acontece quando esse interesse científico chega ao público mais depressa do que a prática clínica. O autor diz-se preocupado com «as promessas exageradas e as práticas inadequadas» que surgem desta onda de entusiasmo, alimentada em parte pelas redes sociais.

Que argumentos apresenta?

O argumento central é psicológico. A experiência psicadélica pode trazer à superfície conteúdos emocionais difíceis, incluindo memórias traumáticas. Recorrendo à ideia freudiana de que a repressão cumpre uma função de autopreservação, o autor defende que, no trauma grave, reprimir apenas adia o problema; mas libertar esses conteúdos sem preparação rigorosa e sem capacidade de os integrar pode fazer mais mal do que bem.

Para o ilustrar, descreve complicações que acompanhou na sua prática em pessoas que usaram psicadélicos fora de um contexto médico. Não reproduzimos esses casos. O autor nota que situações assim não aparecem nos documentários.

Reconhece também que há efeitos adversos em toda a medicina e que isso não anula o valor destas abordagens: continua convicto de que os psicadélicos podem transformar a psiquiatria. No entanto, face aos potenciais riscos, escreve, «não posso promover este campo de forma leviana ou com promessas irreais».

O que exige uma prática responsável, segundo o autor?

O artigo descreve quatro condições para que a experiência psicadélica possa ser terapêutica:

  • uma preparação minuciosa do estado psicológico da pessoa;
  • um contexto favorável;
  • experiência e treino de quem acompanha, para amparar o que surge durante a experiência;
  • uma integração eficaz depois da sessão.

Que conclusões tira?

O autor resume a ideia numa frase: «Este é o grande potencial dos psicadélicos, e também o seu grande perigo.» Defende que a área deve avançar com o equilíbrio entre promessa e prudência, para que os erros de hoje não levem a um regresso ao proibicionismo das décadas de 1960 e 1970.

Que limites tem este texto?

Não cita estudos específicos nem apresenta números: apoia-se na experiência clínica do autor e em casos da sua prática. Foi escrito em 2023; o estado da investigação e da regulação evoluiu desde então, e resumimo-lo na página de evidência científica e, no caso da cetamina e escetamina, numa página própria.

O que significa em Portugal

Comentário da KETAMED. Em Portugal, a psilocibina e a MDMA são substâncias controladas ao abrigo do Decreto-Lei n.º 15/93 e não estão autorizadas como medicamentos. Fora de ensaios clínicos autorizados, não estão disponíveis como tratamento. O estatuto de cada substância está descrito na página de substâncias em investigação.

Na KETAMED, qualquer decisão terapêutica é tomada depois de uma avaliação individual e dentro do enquadramento legal português, que distingue o que está em investigação do que está autorizado como medicamento. A preparação e a integração fazem parte das modalidades de tratamento.